Dia 6 de novembro chega às plataformas de streaming o registro ao vivo da última apresentação do show “Maria Bethânia – 60 anos de carreira”, comemorativo às seis décadas de carreira da cantora. O espetáculo estreou em setembro de 2025, no mesmo Vivo Rio (RJ) , no qual foi captado em áudio e vídeo.
“Sessenta anos de carreira é muito tempo. Eu comecei muito menina e vim aprendendo com a música, com a vida, com as canções que me chegavam, com o movimento dos músicos, dos maestros, com as escolhas. Quase como estar reestreando em Opinião: foi essa a sensação que tive para comemorar os sessenta anos”, pontua Maria Bethânia.
O álbum, que também será editado na versão física, em CD duplo, traz duas faixas que Bethânia apresentou ao público nesta turnê: “Balangandã”, de Paulo Dáfilin e Roque Ferreira, e “Se Não Te Vejo”, composição de Pedro Abrunhosa.
O repertório inclui ainda “Palavras de Rita”, lançada anteriormente como single, e “Vera Cruz”, agora em sua versão ao vivo.
Interseção entre a linguagem musical e a dramaturgia, o show “Maria Bethânia – 60 anos de carreira” chega às plataformas digitais como álbum musical no dia 6/11. No dia 10/11, o audiovisual do espetáculo estreia no canal da Biscoito Fino no Youtube. Extraído do espetáculo, o videoclipe de “Olhos nos olhos” estreia no YouTube junto com o álbum digital.
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Ter o coração daquilo
Texto em um ato
por Eucanaã Ferraz
Este álbum se passa numa só noite.
Levou sessenta anos para ser feito.
É festa.
Abre-se com uma síntese luminosa e veloz: – saúda-se o sagrado: as ayabás, a Rainha dos Raios; – anuncia-se o que partilharemos: um “momento de prece e de carnavais”; – e logo dá-se o entendimento de tudo: “há momentos que se casam com canção” e fazer tal aliança é a profissão daquela que celebra conosco a vida e o trabalho, a voz e a plateia. Mas não há pausa, somos apanhados pela indignação de “Podres poderes”. O canto soa quase “falado”, tamanha é a sua nitidez, frase a frase, palavra a palavra, sílaba a sílaba. Força e retidão.
Entendemos, ou sentimos, que será – já está sendo – uma noite “de calma”, mas também “de vento”. A intensidade rítmico-retórica continua em “Baioque”: “Eu odeio e eu adoro numa mesma oração”. Estamos no reino áspero e dançante do blues. O roteiro é desde o início uma declaração de princípios – estéticos? existenciais? políticos? – em ação. Palco! Drama!
Uma quase-pausa vem após “Baioque”, mas não para suavizar a cena, pois, ao contrário, o silêncio emoldura o trauma e a veemência das palavras de Davi Kopenawa e Bruce Albert em “A queda do céu”: “Mais tarde, na floresta, talvez morramos todos. Mas não pensem os brancos que vamos morrer sozinhos.”
O roteiro vai buscar outra ponta do Brasil com “Ofá”, introduzida com o canto coral a cappella sul-africano de Janeh Magalhães, Jenni Rocha e Fael Magalhães.
O quadro está perfeito para “Kirimurê”, voz altissonante e reivindicatória dos antigos donos da terra – o caboclo, o tupinambá, agora expropriados do chão.
Toda a sequência é um só canto, palavra e ritmo de guerreiros e guerreiras, cantorias de luta, de cuidado e trabalho. Em uma única voz, canta um coral; nele ouvimos a menina que há seis décadas cantou “Carcará”. A voz de agora insiste e canta ainda a fome de sua gente.
O fragmento de Água viva parece fundir, nas poucas palavras de Clarice Lispector, tudo o que se passou até agora e o que ainda virá: “Não se compreende música; ouve-se. Ouve-me então com teu corpo inteiro”. O canto se exibe consciente, ou ainda, lúcido, e nos faz um convite, mas o que exige de nós não é menos que a entrega total.
Para tanto, somos confrontados com a presença eletrizante de A cena muda (1974), numa sequência perturbadora. Aqui está o espírito do espetáculo dirigido por Fauzi Arap – a lâmina de tudo, meio século depois, permanece afiada, posicionando-se fora do poder: “eu, bandoleiro, eu, o proscrito, eu, o fora da lei” (“Encouraçado”). Há uma desobediência e uma recusa radicais: “Debaixo do chapéu aparento um cangaceiro” (“Taturano”), “Eu não vou me importar com a maldade de quem nada sabe” (“Resposta”), “Espelho meu, existe alguém pior que eu?” (“Demoníaca”).
Os versos de Herberto Helder formam um exuberante buquê de imagens em louvor das mulheres e abrem uma sequência de canções de amor, porque o sentimento virá à cena como experiência feminina. Então, salta do acervo de sucessos, vibrante e cheia de suingue, “Cheiro de amor”, o jingle de motel que a ousadia de Bethânia, em Mel (1979), trouxe para outro mundo, para o alto mundo. Em “O lado quente do ser”, ouvimos a mulher que “não quer nada de menos”, como se cantassem com Bethânia as vozes tutelares de Dalva de Oliveira ou Nora Ney.
boas-vindas nessa noite; mas agora, suas palavras vêm apenas faladas para falar sobre o canto: “Cantar é mais do que lembrar / é mais do que ter tido aquilo então / mais do que viver, do que sonhar / é ter o coração daquilo”. A definição é perfeita na sua exatidão de grande poesia. É uma noite em louvor do canto.
Maria Bethânia não se cansa de agradecer. Há dez anos, quando festejava cinco décadas de carreira, um outro espetáculo se chamava Abraçar e agradecer. O título apenas dava nome a gestos que vinham de longe, e que se renovam agora, após uma década: parte inalienável da grandeza dessa artista vem de sua permanente gratidão, como se a cada passo renovasse suas promessas de fidelidade. Porque na base de tudo está o dom, Bethânia agradece primeiramente à graça de ter uma voz, de ser uma voz.
Assim, a próxima sequência será de agradecimento e homenagem – a outras vozes, ou, precisamente, a vozes femininas. Lembremos que desde o início está em cena o feminino: na exaltação às ayabás, no louvor à figura de “Yemanjá”; em imagens afirmativas como “eu gosto de ser mulher”; nas presenças de Sueli Costa, Maysa, Ângela Ro Ro, Clarice Lispector. E, agora, na presentificação de Nana Caymmi: “Ela canta. / Pode-se ouvir. / Pode-se ver: a voz vem do mar.” Com Nana, vem Brasileirinho (2003), um cheirinho, só.
Sueli Costa, Gal, Rita Lee, Nana Caymmi, Angela Ro Ro – haviam partido há tão pouco tempo. Bethânia se pergunta diante do mistério: “Onde estarão suas vozes?”
A sequência se conclui com uma surpresa: “Rita Lee deixou uma letra/poema com um pedido: que eu a cantasse. Entregou à minha voz seus pensamentos, reflexões e lucidez. Pediu que o Roberto, seu amor e parceiro, musicasse. Comovida, realizo o desejo dessa artista imensa”.
São as mulheres que trazem o verbo. E todas elas são a mesma mulher que carrega a lata na cabeça (“A força que nunca seca”).
“As mulheres têm uma roseira espalhada no ventre”, ouvim os lá atrás.
Abre-se, então, a “Rosa dos Ventos” – ela, sempre ela!
E é também, e sempre, o Brasil, agora em seu destino trágico. Grandeza e desastre. A natureza retornando em pesadelo às forças descontroladas do caos na forma de uma enchente amazônica: a queda do céu.
Mas o pesadelo de A Rosa dos Ventos revela-se renascimento quando “Vera Cruz” levanta-se do chão e o palco se enche de coragem e galhardia.
O Brasil ressurge da própria explosão, capaz de dissolver as contradições pelo amálgama amoroso das diferenças: “nação hermafrodita”.
“Carcará” passa voando, veloz na voz, e vai-se por ora.
Eis a festa.
Mas a noite está perfeita, queremos mais: “A menina dos olhos de Oyá” e “Reconvexo”.
Felizes, guardamos o disco para voltar a ele.
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Ficha Técnica:
Maria Bethânia: Roteiro
Otavio Juliano: Direção visual e concepção
Maneco Quinderé: Direção de iluminação
Mari Pitta: conceituação estética e projeto cenográfico
Gilda Midani: Figurinos Maria Bethânia e banda
Duda Munhoz: Colaboração de projeto cenográfico
Luciana Ferraz/ Interface Artes e Filmes: Criação e design de vídeo cenário
Eucanaã Ferraz: Pesquisa de textos e poemas
Ana Basbaum: Coordenação Geral
Opa Produções Artísticas: Produção geral
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Banda:
Jorge Helder: maestro, baixo e bandolim
Jonatan Harold: piano
Rodrigo Tavares: teclado
Paulo Dáfilin: Violão, viola e guitarra
Pedro Sá: violões e guitarra
Marcelo Martins: Sax tenor
Jessé Sadoc: trompete e flugelhorn
Marcelo Costa: Bateria e percussão
Boka Reis: Percussão
Gabriel Policarpo: Percussão
Fael Magalhães: Arranjo de vozes e vocal
Janeh Magalhães e Jenni Rocha: Vocais
Produção Musical: Pedro Guedes e Thiago Gomes
Arranjos: Pedro Guedes, Thiago Gomes, Paulo Dafilin, Alberto Continentino e Pretinho da Serrinha
Gravado no Vivo Rio, nos dias 17 e 18 de janeiro de 2026
Ouça o álbum: https://orcd.co/60anosdecarreiraaovivo
Assista ao videoclipe de “Olhos no olhos” (estreia dia 6)
https://www.youtube.com/watch?v=B-TRps7K9Ug
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Fonte: Ascom
Foto: Guilherme Nabhan







