Silvaney Silva Santos: Historiador/Pesquisador. Autor do livro “Santo Amaro das Brotas, do histórico ao lúdico (Séc. XX), 2017. Professor do Sistema Estadual de Educação e do Sistema Municipal de Educação de Santo Amaro das Brotas.
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Falar sobre a atuação dos CRUZ, a partir da virada do século XIX para o século XX, é encontrar o rumo da história sergipana pós abolição, pós monarquia … Empresários e políticos baianos vêm para Sergipe “fazer dinheiro” numa praça sem concorrência, num momento de virada de chave para “modernidade”. Não pretendemos contar a atuação deste personagem, dos seus “grandes feitos”; mas apresentar as últimas vontades, a partir do seu testamento, de um dos precursores da indústria em terras sergipenses.

Vemos acima o busto de João Rodrigues da Cruz. O mesmo encontrado abandonado no Gabinete de Leitura de Maruim, instituição que teve o referido João como um dos seus benfeitores e fundadores. Muitos sequer sabem ou sabiam de quem se tratava. A peça sugere a “formação da alma” deste sujeito numa tentativa de imortalizá-lo.
Por dentro do testamento de João Rodrigues da Cruz … “Anno de mil e novecentos décimo segundo da República dos Estados Unidos do Brasil, aos vinte e sete dias do mês de setembro do dito anno, nesta cidade de Maroim, Comarca do mesmo nome Estado de Sergipe…” […].
“Dr. Thomaz Rodrigues da Cruz testamenteiro “do seu finado irmão o comendador João Rodrigues da Cruz, falecido no anno de mil oitocentos e noventa e três […].”
Como vimos acima, JRC confiou primeiramente ao seu irmão, Dr. Thomaz Rodrigues da Cruz, a tarefa de testamenteiro. O testamento é um documento importante para percebermos, por exemplo, aspectos relacionados à fé dos indivíduos e ao mesmo tempo comprovar boas obras aqui na terra por medo de ir para o inferno pós morte. Compulsando uma série desta tipologia documental, percebemos os costumes da época, as mentalidades de grupos de indivíduos que deixaram expressas as suas últimas vontades. Tais costumes ultrapassaram épocas. Do século XIX às primeiras décadas do século XX são perceptíveis tais práticas por dentro dos testamentos e inventários.
Dr. Thomaz Rodrigues da Cruz não contrariou o seu irmão. Resumidamente, dentre tantas “doações”, foram duas as principais últimas vontades de um dos fundadores do Gabinete de Leitura de Maruim (1877), João Rodrigues da Cruz, “concluir o Instituto Cruz” com o intuito de “perpetuar a sua memória nesta cidade”. Além de fincar em letras garrafais a marca da família CRUZ no INSTITUTO CRUZ como forma de se imortalizar. Esta escola está entre as primeiras em Sergipe no quesito Educação “para o comércio”. Abaixo vemos o antigo prédio do Instituto Cruz em estado lamentável. Inaugurado em 1902. Possivelmente, o primeiro bem patrimonial de Maruim do século XX. Uma arquitetura de estilo eclético com referências do neoclássico.

A respeito do Instituto Cruz, vemos a transferência do mesmo para a municipalidade na mensagem apresentada à Assembleia Legislativa de Sergipe na primeira sessão ordinária da 6ª legislatura, em 7 de setembro de 1902 pelo Presidente Monsenhor Olympio Campos, que diz:
“Tendo o Governo Municipal de Maroim aceitado o edifício onde deve funcionar o Instituto Cruz, fundado em virtude de verba testamentária do Comendador João Rodrigues da Cruz, que foi inteligente industrial, parece conveniente a suppressão da cadeira avulda ao ensino secundário daquela cidade , dando o Estado uma subvenção para auxiliar o município na manutenção das aulas daquele Instituto. O fim principal do Instituto é ministrar o ensino para os que se dedicarem à carreira comercial” (p.20).
O testamento mostra que o comendador João Rodrigues da Cruz também incluiu nas suas últimas vontades o traslado dos seus “ossos” “para o jazigo de família no Cemitério de Campo Santo, na Bahia”, onde estão sepultados os seus pais.
Abaixo vemos os materiais e os valores despendidos para a “edificação” do Instituto Cruz, conforme testamento de João Rodrigues da Cruz:


Por fim, trata-se aqui de uma questão de reconhecimento, de memória histórica sobre as últimas “vontades” de um sujeito da elite econômica baiana/sergipana, que atuou sobremaneira, não somente para manter-se vivo na memória dos sergipanos, mas para o crescimento econômico dos CRUZ e consequentemente, do recém Estado de Sergipe com o nascimento da República Brasileira.
Referências:
CARVALHO, José Murilo. A formação das almas, o originário da República do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
Mensagem apresentada à Assembleia Legislativa de Sergipe na primeira sessão ordinária da 6ª legislatura em 7 de setembro de 1902 pelo Presidente Monsenhor Olympio Campos, Aracaju, Typografia “O Estado de Sergipe”, 1902.
TESTAMENTO do comendador João Rodrigues da Cruz, Maruim, 1900. Arquivo Geral do Judiciário, Fundo Maruim/Cartório 1º Ofício, caixa 06, número geral 859.
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