Luno acaba de lançar Mantracaru, seu segundo álbum de estúdio. Cinco anos após Homo Pacificus (2021), o artista sergipano amplia sua pesquisa musical em um trabalho que aproxima psicodelia brasileira, rock progressivo, referências nordestinas, jazz, pop dos anos 1960, arranjos orquestrais, sonoplastia e experimentação sonora.
Mais do que reunir diferentes referências, o álbum foi construído como uma experiência de passagem por paisagens sonoras e imaginárias distintas. As músicas transitam entre momentos luminosos e sombrios, situações cotidianas e elementos fantásticos, sempre mantendo como fio condutor o interesse de Luno por temas como transformação, comportamento humano, espiritualidade e resistência.
“Eu vejo o Mantracaru como uma travessia poética entre o cotidiano e o mítico, espaço musical onde eu misturo psicodelia brasileira, espiritualidade, imaginário nordestino e reflexão social. É uma obra sobre permanecer sensível, consciente e vivo diante das contradições do mundo”.
Uma travessia em oito faixas
O percurso de Mantracaru começa com “Aos Amigos, Um Abraço”, que abre o disco com a imagem de uma porta sendo aberta. A partir dela, o ouvinte entra em um universo que passa por felicidade, esperança, fantasia, estranhamento, crítica social e elementos míticos até chegar à faixa-título, responsável por encerrar o álbum em uma atmosfera mântrica e transcendental.
A própria capa, assinada pelo artista visual Gabriel Barretto, traduz visualmente essa ideia. Nela, Luno aparece diante de um portão cercado por cactos, em um cenário noturno e misterioso. A imagem funciona como uma representação da entrada para o território imaginário construído ao longo das oito faixas, aproximando o sertão, o mistério e a psicodelia.
O título também nasce dessa combinação. Mantracaru funde “mantra”, associado à repetição, introspecção e transformação, com “mandacaru”, elemento relacionado à resistência, permanência e ao imaginário nordestino.
Contrastes sonoros
A diversidade de Mantracaru aparece na identidade particular de cada faixa. “Epopéia de uma Vida Feliz” parte de referências de Beatles e Beach Boys para construir uma atmosfera mais melódica e luminosa. Já “O Bando do Café da Manhã” mergulha em um universo fantástico e psicodélico, com ecos de Syd Barrett, Pink Floyd inicial, Os Mutantes e The Who.
Em “Seres de Pano”, a atmosfera se torna mais sombria e inquietante. A composição combina piano acústico, sonoplastia, cordas e percussão sinfônica antes de avançar para uma sonoridade marcada pelo indie rock e pelo rock progressivo, com referências às trilhas de Danny Elfman para os filmes de Tim Burton e à tensão característica do Radiohead.
Duas dessas músicas chegaram ao público antes do álbum, destacando a construção orquestral com um elemento importante do disco e as extremidades ambientais encontradas ao longo das faixas, transitando entre luz e sombras. As cordas de violinos e violoncelos e a percussão sinfônica são incorporadas nas músicas como parte da narrativa, fortalecendo momentos esperançosos e outros de tensão dramática.
“Colorida Barca”, primeiro single, apresentou uma face mais luminosa do álbum, enquanto “Seres de Pano” revelou seu lado mais sombrio. As duas receberam arranjos de cordas assinados pelo maestro e professor do Conservatório de Música de Sergipe James Bertisch, com participação de Thiago Salvino (violoncelo), Fabíola Fontele (viola), Junior Vanzella (violino) e Francisco Júnior (violino), músicos da Orquestra Sinfônica de Sergipe. Bertisch também participa de “Seres de Pano” com tímpano e tam-tam (gongo sinfônico).
Na formação musical, Luno assume vocais e baixo, enquanto Léo Airplane assina piano, teclados, sintetizadores, guitarras, violão e efeitos sonoros. Gabriel Perninha completa a base com bateria e percussões. Ao longo do álbum, esses instrumentos se somam a mellotron e sonoplastias, criando diferentes texturas para cada composição.
Outras faixas incorporam elementos de afrobeat, garage rock dos anos 1960 e rock progressivo, reforçando a proposta de um álbum que muda de atmosfera sem abandonar uma identidade comum.
Entre memória e imaginação
Parte do material que compõe Mantracaru nasceu muitos anos antes da gravação. “Mulher-Onça”, “O Bando do Café da Manhã”, “Seres de Pano” e “Colorida Barca” foram compostas ou iniciadas ainda na juventude de Luno, recuperando elementos da imaginação de um artista que começava a desenvolver sua própria linguagem.
“Colorida Barca” guarda uma história ainda mais longa. O primeiro esboço foi criado em parceria com um amigo de infância e tinha apenas dois versos. A composição permaneceu inacabada durante anos, até que, em 2017, Luno criou a ponte e a melodia do refrão. Os versos restantes só surgiram durante o processo de produção de Mantracaru.
A busca pelo arranjo também passou por diferentes possibilidades. Sanfona, mellotron e viola de 12 cordas foram testados, mas nenhum dos caminhos parecia completar a música. A solução veio com os arranjos de cordas de James Bertisch. “Foram os geniais arranjos de cordas que entregaram a beleza que a música precisava”, afirma Luno.
A combinação entre composições antigas e novas experiências de produção faz com que Mantracaru reúna diferentes momentos da trajetória de Luno sem se limitar a uma reconstrução do passado. As canções são revisitadas a partir da perspectiva do artista que existe hoje.
Um novo momento artístico
Depois de Homo Pacificus, Luno chega ao segundo álbum com uma linguagem mais ampla. Permanecem o interesse pela dimensão filosófica e a reflexão sobre o comportamento humano, mas ganham espaço o imaginário nordestino, a ancestralidade, o misticismo, os regionalismos e novas possibilidades de arranjo e produção.
“Do Homo Pacificus ao Mantracaru, sinto que houve um amadurecimento em mim, tanto artisticamente, quanto como indivíduo. Eu venho buscando ampliar minhas linguagens. É uma evolução, não uma ruptura: o mesmo universo artístico, agora mais amplo, orgânico e conectado às minhas raízes”.
“Espero que este novo ciclo represente a consolidação da minha identidade artística e, ao mesmo tempo, uma renovação. Esse trabalho reúne maturidade artística, experimentação, espiritualidade e raízes nordestinas, ampliando minha linguagem musical e abrindo novos caminhos para que minha obra alcance outros públicos sem perder sua essência”, conclui Luno.
Ouça Mantracaru: tratore.ffm.to/mantracaru
Projeto realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo, por meio do Ministério da Cultura, Governo Federal, Governo do Estado de Sergipe e Fundação de Cultura e Arte Aperipê de Sergipe – Funcap/SE.
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Fonte: Ascom
Foto: Divulgação







