Festival Serigy All Stars estreia em janeiro como plataforma de circulação da música autoral sergipana

Primeira edição reuniu artistas de diferentes gerações, com pré-lançamentos e debate sobre circulação e políticas públicas para a música
Festival Serigy All Stars Foto Pritty Reis (1)

Janeiro marcou a estreia do Festival Serigy All Stars, em Aracaju, reunindo artistas sergipanos de diferentes gerações em uma programação de shows que destacaram pré-lançamentos e projeção na circulação nacional. Com casa cheia, o evento conectou a cena local a produtores de festivais de outros estados e reforçou Sergipe como território ativo da música brasileira contemporânea.

Táia, Luno, A Banda dos Corações Partidos, Alex Sant’Anna e Anne Carol foram as atrações da edição de estreia, realizada em 17 de janeiro, no The Stones Pub, em Aracaju. O festival reuniu mais de 1,5 mil pessoas ao longo da noite, considerando a rotatividade do público em uma casa com capacidade para 800 pessoas.

Fotos: Pritty Reis

A programação começou na véspera com a roda de conversa “Furando a Bolha – Estratégias de difusão da música contemporânea sergipana”, reunindo artistas, produtores e curadores de festivais de diferentes estados, como Luciano Matos (Radioca – BA), Gabriel Caixeta (Festival Timbre – MG), Paulo André (Abril Pro Rock – PE), Binho (Rock Sertão – SE) e Alex Sant’Anna (SE), com mediação do DJ Rafa Aragão, seguida de show solo de Yves Deluc (Cidade Dormitório).

Além disso, em março, o Festival Serigy All Stars terá nova atividade formativa, com a oficina “A Música por Trás do Palco”, ministrada pelo cantor e compositor Alex Sant’Anna, prevista para acontecer na Freedom Discos, com data a ser divulgada.

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Táia: pré-lançamento, afetos e dez anos de trajetória

Abrindo a programação, Táia apresentou o repertório completo de Obatajá, álbum previsto para março, em um show pensado como pré-lançamento e celebração de seus 10 anos de carreira autoral. Conhecida pela mistura de gêneros e pela escrita sensível, a artista tem referências do bolero e do brega, e transita entre pop, rock, reggae e música popular.

“Foi o show de pré-lançamento do álbum Obatajá. É de extrema importância ter esse espaço, com um público que quer saber o que está acontecendo na cena sergipana”, afirmou. “Comecei o show com o álbum inteiro, são dez músicas, e depois trouxe um pouco dessa história de dez anos de carreira, com os EPs Tormento (2019) e o álbum Renasço (2022)”, disse Táia, que convidou o cantor Cah Acioli para uma participação especial.

A artista também destacou referências diretas da cena local. “Alex Sant’Anna e A Banda dos Corações Partidos são inspirações muito próximas para mim. Diane Veloso, no palco, é uma deusa, sempre muito inspiradora”. Para Táia, a continuidade da carreira passa pelo encontro com o público: “O que me segura é o retorno das pessoas, quando alguém escuta uma música e diz o que sentiu, de que forma se viu naquela letra”.

Ouça Táia: tratore.ffm.to/taiarubir

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Luno: psicodelia, amadurecimento e diálogo nordestino

Com mais de 25 anos de estrada, Luno apresentou músicas do seu próximo álbum Mantracaru, previsto para este ano, em um show que evidenciou o momento de amadurecimento artístico de sua carreira solo, iniciada com Homo Pacificus (2018). Conhecido pela ligação com o rock psicodélico desde os tempos da banda Plástico Lunar, o músico tem expandido seu repertório ao incorporar elementos da música nordestina.

“Sempre fui muito associado ao rock psicodélico. Com o álbum Mantracaru, eu tô querendo sair um pouco desse rótulo, mesmo que ainda passeie por esse campo. É um projeto mais maduro e apurado, com elementos regionais, timbres de guitarra, flauta, sanfona e triângulo”, explicou. O disco dialoga com orquestras de pífano, o movimento armorial e referências visuais ligadas ao universo de Ariano Suassuna.

Para Luno, o Serigy All Stars cumpriu um papel estratégico para a cena. “O festival superou todas as expectativas. A casa estava lotada, cheia de jovens, e tinham curadores de outros festivais observando. Isso, para mim, foi gigante”. O show contou com participação especial de Tarso Jones, da banda Corujones, de Brasília.

Ouça Luno: linktr.ee/lunotorres

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A Banda dos Corações Partidos: melodrama, poesia e enfrentamento

Uma das atrações mais aguardadas da noite, A Banda dos Corações Partidos apresentou pela primeira vez, na íntegra, as músicas do seu próximo EP Borrada, previsto para março. O trabalho investiga um processo conceitual e visceral, abordando temas como violência e abusos a partir de uma estética que mistura rock e melodrama.

“Foi a primeira vez que a gente cantou todas as músicas do EP. Eu estava com muito medo, porque é um disco inquietante, com temas muito pesados”, contou a vocalista Diane Veloso. “Mas a poesia tem esse lugar de potência, de atingir as pessoas de outro jeito”. O show contou com a participação da cantora trans sergipana Stella.

Com 17 anos de trajetória, o grupo construiu uma relação intensa com o público. “Quando a gente entra em cena, a gente se conecta muito com as pessoas. A gente traz temas que são muito verdade para a gente, e que são também verdades emocionais compartilhadas em camadas populares de amor e ódio. A gente pega isso e esgarça”.

Ouça A Banda dos Corações Partidos: linktr.ee/abdcpartidos

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Alex Sant’Anna: brasilidade, regionalismos e ancestralidade

Idealizador do Festival Serigy All Stars, Alex Sant’Anna também subiu ao palco com um repertório que atravessa quase 30 anos  na música, transitando por MPB, baião, samba, afoxé, afrobeat, rock e experimentações. Além de músicas consagradas dos álbuns Encruzilhada (2022), Baião Amargo (2020) e Enquanto Espera (2015), o artista também apresentou composições inéditas que ainda serão lançadas.

“O impacto que a gente espera com o festival é sempre de reprodução”, explicou. “Que o público de um artista conheça o outro, e assim a gente fortalece a cena e as carreiras individuais”. Além de músicas consagradas da carreira, Alex apresentou. O show contou ainda com participações das cantoras Jaque Barrosos, Quésia e Diane Veloso.

Sobre sua permanência na música, foi direto: “São quase 30 anos de carreira. Eu não saberia ficar sem fazer isso. Quando fico muito tempo sem produzir, sem compor, sem fazer show, eu fico triste. Então eu continuo, independente de quantas pessoas estejam ali”. O músico também reforçou o principal entrave para a realização de festivais independentes em Sergipe: “O principal desafio sempre é política pública. A gente só conseguiu fazer esse primeiro festival por causa da política pública federal, a PNAB”.

O artista criou também o selo Disco de Barro, responsável por coletâneas como Sergipe’s Finest e Serigy All-Stars, ampliando a visibilidade da música sergipana no Brasil e no exterior.

Ouça Alex Sant’Anna: alexsantanna.com.br

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Anne Carol: música preta brasileira e pertencimento

A cantora Anne Carol levou ao palco um repertório que dialoga com a música preta brasileira, com referências em Sandra de Sá, Luedji Luna, Tim Maia, Jorge Ben Jor, Soares e Gilberto Gil. Sua sonoridade transita entre soul, funk, black music, MPB, reggae e dub, unindo canções autorais do álbum Semblantes (2023) e interpretações.

“As minhas músicas fazem parte da minha vida. São músicas autorais, mas também músicas interpretadas”, afirmou, destacando uma inspiração sergipana. “Alex Sant’Anna é compositor de uma música que eu canto e é uma grande referência para mim. Foi a primeira pessoa com quem entrei em estúdio”, disse Anne, que convidou Alex para uma participação no show.

Para a artista, participar do Festival Serigy All Stars simboliza reconhecimento dentro da cena local. “Estar neste festival significa que meu trabalho está atravessando as pessoas e está fazendo parte da cena de fato. Quando o público canta junto, isso dá força para continuar”.

Ouça Anne Carol: linktr.ee/annecarolll

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Olhar do público e diversidade de linguagens

Diretamente do público, o bailarino e coreógrafo Leandro Matos destacou o festival como espaço de valorização da arte autoral e da diversidade de linguagens. “O festival vai além da música: tem figurino, dramaturgia, inclusão com intérprete de Libras. Isso me dá orgulho e esperança de que esse seja o primeiro de muitos”.

Binho, um dos idealizadores do festival Rock Sertão, realizado em Nossa Senhora da Glória (SE), também elogiou a iniciativa. “Uma coisa interessante é que a produção do festival trouxe produtores de outros estados para ver os shows de artistas sergipanos na tentativa de levá-los para outros locais”.

Política pública como gargalo estrutural

Além de atriz e vocalista da Banda dos Corações Partidos, Diane Veloso também divide a produção do Festival Serigy All Stars com Alex Sant’Anna e Nah Donato. A artista fez uma crítica direta à ausência de políticas públicas permanentes para a cultura em Sergipe, especialmente nos âmbitos estadual e municipal.

“Precisamos de políticas públicas municipais e estaduais contínuas. Não dá para ser pontual. A gente não pode ficar dependente apenas de leis federais, como a PNAB que propiciou este festival”, afirmou. “O estado e o município precisam investir, ouvir a gente, ver a gente. Essas leis federais vieram para provar que a gente tem uma força imensa e movimentamos uma cadeia produtiva”.

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Playlist Serigy All Stars

Para quem quiser conhecer artistas e bandas independentes de Sergipe, a Playlist Serigy All Stars está disponível no Spotify e YouTube Music. “Sergipe tem uma cena que vem se transformando e sempre se renovando com artistas novos. A gente acompanha isso de perto por meio da playlist Serigy All Stars, que toda semana recebe novos lançamentos”, afirmou Alex Sant’Anna.

Com produção de Alex Sant’Anna, Nah Donato e Diane Veloso, o festival é um desdobramento de 14 anos de atividades do coletivo Serigy All Stars, inspirado no legado do Cacique Serigy, símbolo da resistência indígena em Sergipe.

“Mais do que uma programação de shows, o festival se propõe a ser uma plataforma de visibilidade, intercâmbio cultural e projeção da música de Sergipe dentro e fora do estado”, destaca Alex Sant’Anna.

O Festival Serigy All Stars (SE) foi contemplado nos editais da Política Nacional Aldir Blanc – Sergipe e teve apoio do Governo do Estado de Sergipe, por meio da Fundação de Cultura e Arte Aperipê de Sergipe, via PNAB, direcionada pelo Ministério da Cultura – Governo Federal.

Ouça a Playlist Serigy All Stars: linktr.ee/discodebarro

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Fonte: Ascom/Festival Serigy All Stars